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Cantora Maria Guinot morre aos 73 anos

04/11/2018 18:42

A cantora, compositora e pianista Maria Guinot, que representou Portugal no Festival da Eurovisão em 1984, com Silêncio e Tanta Gente, morreu hoje, aos 73 anos, avançou o canal de televisão SIC.

O velório realizar-se-á a partir das 17:00 de domingo na Igreja da Parede (Cascais) e as cerimónias fúnebres estão marcadas para as 10:45 de segunda-feira, seguindo depois o funeral para o cemitério de Barcarena, disse à Lusa fonte da Paróquia da Parede.

Maria Guinot - Maria Adelaide Fernandes Guinot Moreno - nasceu em Lisboa, em 1945, fixou-se com a família no Barreiro, ainda na infância, iniciou uma formação musical clássica, em finais da década de 1950, mas foi no modelo de canção que se destacou.

Editou um primeiro ‘single’, em 1968, com “Criança Loura”, “A Canção Que Eu Canto”, “La Mère Sans Enfant” e “Toi, Mon Ami”, revelando-se como autora, na linha dos ‘baladeiros’, que emergia na época.

A perspetiva foi reafirmada num segundo disco, no ano seguinte, com canções como “Balada do Negro Só”, “Silêncios do Luar”, “Escuta Menino”, “Poema de Inverno”. Apesar de ouvida na rádio, ficou afastada dos palcos durante vários anos.

O regresso aconteceu em 1981, com Um Adeus, Um Recomeço, que lhe garantiu o 3.º lugar no Festival RTP, a edição de novos discos e a revelação de novas canções: Falar Só Por Falar, Vai Longe O Tempo, Um Viver Diferente.

Foi, porém, em 1984, quando venceu o Festival RTP, com Silêncio e Tanta Gente, que o seu nome chegou ao grande público.

A interpretação ficou na memória: em solidariedade com os músicos em greve, Maria Guinot recusou o ‘playback’ adotado nessa edição, e acompanhou-se a si mesma ao piano.

Em 1986, compôs Homenagem às mães da Praça de Maio, nos dez anos do início da concentração das mulheres que, em Buenos Aires, exigiam saber dos filhos desaparecidos durante a ditadura militar argentina (1976-1983).

A canção foi incluída no duplo álbum da CGTP-Intersindical “Cem anos de Maio” e foi uma das ‘bandeiras’ do programa Deixem Passar a Música, da RTP, no qual Maria Guinot foi acompanhada por José Mário Branco, que produziu e dirigiu a orquestra.

Guinot cantou aqui grande parte do seu repertório, destacando-se a sua Saudação a José Afonso, canção recusada pelo júri do festival da canção de 1986.

“Não podia deixar passar esta oportunidade de homenagear um homem como José Afonso”, disse Maria Guinot no programa, emitido pouco antes da morte do compositor de “Grândola, Vila Morena”. “A orquestração de José Mário Branco é de desespero e de raiva”, acrescentou.

No ano seguinte, lançou o seu primeiro álbum, Esta Palavra Mulher, numa edição de autor.

Seguir-se-ia, em 1991, Maria Guinot, com produção de José Mário Branco, e a participação de músicos como a violoncelista Irene Lima, o contrabaixista Carlos Bica, o saxofonista Edgar Caramelo e o percussionista João Nuno Represas.

Até 2004, quando foi editado “Tudo Passa”, não há registo de outros disco de Maria Guinot.

Escreveu, porém, “Histórias do Fado” (1989), com Ruben de Carvalho e José Manuel Osório, e manteve a intervenção política e social: subscreveu a saudação ao 30.º aniversário da Revolução Cubana, em 1989, com o ator Rogério Paulo, os escritores José Saramago e Natália Correia; condenou a política de não admissão de mulheres por bancos privados portugueses, no manifesto “Dizemos Não Aos Bancos Com Preconceitos”, no início dos anos de 1990; fez parte do movimento pela despenalização do aborto e da Frente para a Defesa da Cultura, que, na época, marcou a contestação do setor.

Em 1991, atuou em Cabo Verde, no Dia de Portugal. Em 1994, nos 20 anos do 25 de Abril, montou o espetáculo Os Poetas de Abril, com a atriz e encenadora Fernanda Lapa.

Afastada do ativo desde 2010, por doença, recebeu, em 2011, a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores.