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Nha Balila, a ‘cantadeira’ cabo-verdiana que vê só com o coração

12/12/2017 12:57

Conhecida por todos e conhecedora de meio mundo, cheia de histórias, assídua nos programas de rádio, Nha Balila é uma cabo-verdiana de sete ofícios, que toca e canta, não vê com os olhos, mas sim com o coração.

Isidora Semedo Correia, mais conhecida por Nha Balila, nasceu a 12 de dezembro de 1929 na localidade de Serra Malagueta, no concelho de Santa Catarina, Interior da ilha de Santiago.

Uma de quatro irmãs, também invisuais, tendo duas já falecidas, Nha Balila mora há 51 anos no bairro de Tira Chapéu, na cidade da Praia.

É numa das figuras mais conhecidas do país, pela sua alegria, sabedoria, conhecimentos, dinamismo e pela presença nos meios de comunicação social, onde liga praticamente todos os dias para os programas de rádio do país, onde de forma direta e frontal aconselha e critica, não poupando ninguém.

Invisual há muitos anos, disse que a rádio é o seu melhor amigo, e compreende tudo até em inglês, francês e espanhol, quando mais em português.

É também muito conhecida pela sua contribuição para o género musical batuco, e será homenageada hoje nos seus 88 anos de vida, com um espetáculo no Palácio da Cultura Ildo Lobo, que contará com atuação de Princezito, Tradison di Terra e Batucadeiras de Bela Vista.

Em Tira Chapéu, todos a conhecem e sabem onde mora. Um senhor indica a casa, que tem a porta verde entreaberta e o cartaz do espetáculo colado na parede.

Nha Balila conhece meio mundo, sabe tudo o que acontece em Cabo Verde, tem uma memória bastante fértil, mas foi apenas três dias para a escola, quando tinha 10 anos, recordando que o professor notou que já tinha problemas de visão e mandou-lhe para casa.

Com 14 anos, começou a entrar no terero para tocar e dançar o batuco com a mãe, e depois formou o seu primeiro grupo, Bali Pena, que terminou no início dos anos 1991.

Nha Balila viajou ainda para países como Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe, onde durante nove anos fez quase todo o tipo de trabalho como contratada nas roças.

Regressou a Cabo Verde em 1966, nove anos antes de independência do país, ato que não assistiu porque estava internada no Hospital, após sofrer um acidente a 28 de junho de 1975, que até hoje ainda lhe causa dores em várias partes do corpo.

Autora de várias composições, recordou que após a independência apostou mais no batuco, tendo mais tarde formado outro grupo: Artistas Portadores de Deficiência.

Também ajudou a construir Cabo Verde, recordando à Lusa que carregou areia, cimento e brita, juntamente com outras mulheres, para a construir vários edifícios emblemáticos, como o Parque 5 de Julho, palácios da Assembleia e Auditório Nacionais e escolas.

Orgulha-se também de ter participado em outros projetos sociais, bem como de ter trabalhado para a polícia, milícias, comissões de combate à droga, Ministério de Saúde, Cruz Vermelha, apontando para vários diplomas de reconhecimento pendurados na parede da sala de casa.

Nha Balila teve duas filhas, mas morreram, e agora mora com um menino de 10 anos, que está na 5.ª classe, que uma mulher de fora (interior de Santiago) lhe mandou para fazer companhia.

Em casa, disse que apalpa e faz quase tudo sozinha, e só em casos pontuais conta com ajuda de vizinhos, já que a saúde está mais ou menos.

Na conversa com a Lusa, lamentou também a redução, em 2003, da pensão de 10.900 para 6.000 escudos (98 para 54 euros), que diz que agora não dá para todas as despesas com alimentação, luz e água, pelo que conta com ajuda de amigos e amigas.

Olhando para a atualidade cabo-verdiana, Nha Balila é uma conselheira, mas uma das principais vozes mais críticas, dizendo que o país não está bem, mas tem fé que poderá melhorar.

Salientando que não faz parte de nenhum partido, disse que é uma combatente da terra, que reprova os níveis de violência no país, o reboliço e barulhos à noite.

É preciso mais e melhor controlo. Não estamos a cumprir a liberdade, nem a independência, atirou, recordando que conheceu Amílcar Cabral em Angola.

Considerada também uma ativista da igualdade de género e das questões sociais, Nha Balila disse que as mulheres cabo-verdianas estão magoadas e tristes pelos casos de violação e desaparecimento de crianças, pedindo, por isso, mais proteção para os menores.

Em ano de seca, Nha Balila pediu mais trabalho para os jovens, para ver se concentrem e se têm mais respeito, contribuindo, assim, para a paz, dignidade e amor.

A octogenária olha também para a situação dos portadores de deficiência em Cabo Verde, considerando que são completamente discriminados, e recorda uma vez que alguém arrebatou-lhe a sua bengala da mão, alegando que fingia-se ser cega.

Por isso, afirma que tem inimigos na zona que não entendem a sua situação e sofre de ódio e inveja de pessoas que não recebem as mesmas ajudas.

Nha Balila não vê com os olhos, mas vê com o coração, sublinhou, numa das frases mais conhecidas no país e usada em várias músicas.

Relativamente à homenagem nos seus 88 anos, Nha Balila disse estar emocionada e contente, dizendo que o reconhecimento é mais valorizado do que dinheiro.