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Editora Tinta-da-China quer divulgar “grandes autores brasileiros” em Portugal

26/03/2017 09:57

A Tinta-da-China está a “construir uma ponte” para o Brasil, mas essa travessia também se faz em sentido contrário e a editora quer apresentar aos portugueses “grandes autores brasileiros” não publicados ou apenas marginalmente publicados em Portugal.

É o caso de Graciliano Ramos, Lima Barreto e Rubem Braga, três escritores clássicos brasileiros que a Tinta-da-China pretende publicar e divulgar em Portugal, à semelhança do que já está a fazer com Nelson Rodrigues e Ruy Castro.

“A ideia da Tinta-da-China Brasil foi fazer uma ponte, colocar lá autores portugueses bem editados e, por outro lado, trazer autores contemporâneos brasileiros para cá, o que já estava a fazer. Agora vou começar a fazer os clássicos brasileiros também, autores que, de facto, fazem a diferença e que nós não lemos”, contou à agência Lusa Bárbara Bulhosa, fundadora e diretora da Tinta-da-China.

De Nelson Rodrigues estão já publicados em Portugal três livros (“O homem fatal”, “A menina sem estrela”, “A vida como ela é…”), sendo intenção da editora publicar a obra completa deste escritor.

De Ruy Castro, que se distinguiu, entre outros géneros, como biógrafo, está publicado “Chega de saudade”, sobre a Bossa Nova, e brevemente será editado “O anjo pornográfico”, biografia que escreveu sobre Nelson Rodrigues.

“Quero trazer outros autores que nunca estiveram cá, como [Afonso] Lima Barre, e cronistas fantásticos, como, por exemplo, Rubem Braga”, disse, destacando que Lima Barreto, precursor do modernismo brasileiro, vai ser este ano o autor homenageado no Festival Literário de Paraty (FLIP).

Graciliano Ramos é outro escritor que a editora quer divulgar em Portugal, pois embora já tenha sido cá publicado, atualmente “não está disponível ou, mesmo que esteja, é marginalmente”.

“O que me interessa é fazer este trânsito entre grandes autores portugueses e grandes autores brasileiros, tê-los disponíveis, conseguir fazer este trânsito dentro das minhas possibilidades e das minhas apostas pessoais, aqueles que eu acho que podem ter mais graça ou fazer mais sentido”, acrescentou a editora.

A importância que dá à divulgação, conhecimento e leitura de “autores deste calibre” em Portugal estende-se ao ensino, que Bárbara Bulhosa lamenta que não inclua escritores brasileiros.

“Enquanto os brasileiros na escola ainda estudam ou leem algum autor português, não me lembro de nunca ter lido um autor brasileiro na escola e isso faz-me alguma confusão, porque é a mesma língua. Ter lido Eça e não saber que existia Machado de Assis é uma coisa que me faz alguma confusão. Os brasileiros na escola, pelo menos, sabem que existe Eça de Queirós. Acho um erro tremendo”.

Bárbara Bulhosa recorda que, mesmo os escritores brasileiros que eram mais conhecidos e lidos há 30 anos, como Jorge Amado, “eram adaptados para português de Portugal”, o que “é um disparate, achar que os leitores não vão entender”.

“Não faz nenhum sentido fazer uma adaptação ou estar a mexer num texto original de um autor brasileiro para que os portugueses o possam entender melhor. Imagine-se que nos Estados Unidos e em Inglaterra se fazia uma coisa destas, ou com a Espanha ou a Colômbia. Nunca fizeram. Só nos é que conseguimos esta proeza extraordinária de termos traduções”, afirmou.

Por isso, Bárbara Bulhosa destaca que, na sua política editorial, está “fora de questão” adaptar a escrita dos brasileiros para português de Portugal e vice-versa, sublinhando que “O livro do desassossego”, de Bernardo Soares/Fernando Pessoa, foi publicado no Brasil com a ortografia de Fernando Pessoa e esgotou.

“Não se faz isso, porque não há tradução, é a mesma língua. Assim se vai aprendendo novas palavras, diferentes tonalidades e isso é a riqueza de um texto. Não vamos nivelar por baixo”, afirmou Bárbara Bulhosa que quer ir ainda mais longe: “Brevemente vou publicar no Brasil os diários de Luaty Beirão, como ele os escreveu, em português de Angola”.

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